PRA COMEÇO DE CONVERSA
Aqui estou, com a estreia deste blog/substack, iniciando mais uma jornada política e cultural. Pretendo, nas primeiras publicações, ir esclarecendo algumas posições minhas sobre temas e problemas relevantes da conjuntura que estamos atravessando. Assim, a gente vai se aproximando. E espero que tenhamos muito o que conversar. De saída, botando o time em campo, publico abaixo respostas minhas a três perguntas do filósofo e editor Pedro Alves. Vamos lá.
PA: Durante o pré-lançamento de seu livro mais recente, “Identitarismo”, sua obra figurou três semanas entre os pré-lançamentos mais buscados no país no site da Amazon, um sucesso similar ocorreu com o seu Sobre o Relativismo Pós-moderno e a Fantasia Fascista da Esquerda Identitária, esse já em sua segunda edição; no entanto, enquanto suas críticas ao identitarismo encontram ressonância, simpatia e até aplausos entre os ditos "homens comuns", sendo o senhor hoje um raro fator que une liberais, conservadores e socialistas democráticos em torno de uma crítica comum, é patente notar, entretanto, que tal apreço e louvores não vêm das elites jornalísticas e universitárias do país, que há muito tratam-no como traidor da esquerda e até como pária intelectual. Como o senhor enxerga essa realidade dúbia entre seus leitores?
AR: A universidade brasileira sempre tentou (e continua tentando, ainda hoje) fazer de conta que eu não existo. Conheço “mestres” e “doutores” que, enquanto estiveram em bancos de aulas e seminários de faculdade, nunca ouviram falar de meu trabalho. Vieram a conhecer meus livros – não raro, por acaso – depois que saíram daquele museu, depois que deixaram de ser presidiários mentais. Conheço, também, gente que está fazendo pós-graduação e não me cita para não ser reprovado. O antropólogo Jeferson Bacelar, da Universidade Federal da Bahia, me deu exemplos disso, inclusive. O problema é que esses professores, quando não foram comprados, se cagam de medo do identitarismo, tremem nas bases, temendo ser acusados de direitistas, racistas, transfóbicos, etc. É uma gente covarde, incrivelmente covarde, embora façam teatro de “justiceiros sociais”. Como os movimentos negros sempre tentaram me calar, eles compactuam. Fazem silêncio sobre a minha obra, ao tempo em que vociferam contra a minha pessoa. Mas isso realmente não me afeta. Tenho muita confiança no que penso e acredito fortemente no que faço. Além disso, tenho profundo desprezo político, intelectual e pessoal por essa gente. São ignorantes, boçais e covardes. Não posso perder meu tempo com isso, tenho mais o que fazer. Mais desprezo tenho ainda pelo meio jornalístico atual. Essa gente não sabe sequer escrever, não passa sem o seu erro de português de cada dia, como vemos no Uol, na Folha de S. Paulo, nos noticiários da CNN e da Globonews. Morro de rir com os sucessivos erros de português daquelas legendas dos noticiários televisuais. Mas também me irrito com os absurdos, com os equívocos grotescos que esses jornalistas emitem, especialmente quando falam de coisas brasileiras. É uma legião de semiletrados igualmente boçais. Decoraram umas duas ou três bobagens sobre o Brasil, que ouviram na faculdade, e ficam repetindo solenemente estas suas asneiras favoritas. E também, completamente curvados diante da baboseira identitarista, silenciam sobre o meu trabalho. Quem presta atenção no que eu faço é quem escapa desse padrão múltiplo de zero. É pássaro de outro ninho e de outra plumagem, como Demétrio Magnoli, Francisco Bosco, Eduardo Affonso e uns poucos outros. No meio universitário, apenas as mentes mais livres, a exemplo de Marco Aurélio Nogueira e Mary del Priore. Para não falar dos que já se foram, como Manolo Florentino. E fico muitíssimo feliz em ter esses leitores. Afora isso, conto mesmo com a simpatia e o aplauso do que você tratou como “homens comuns”. É a comunidade geral dos leitores. Uma gente que realmente acompanha o meu trabalho, lê com seriedade o que escrevo, entre concordâncias e discordâncias. Para mim, é mais do que suficiente. E me vejo livre, bem distante, do elogio e do aplauso dos representantes da ignorância e/ou da covardia política e cultural.
PA: No referido livro o senhor realiza um rastreio histórico, filosófico e, diria até, sociológico do movimento identitarista. Um dos argumentos notáveis dessa nova obra é de que boa parte esquerda mundial deliberadamente trocou as pautas sociais por teses acadêmicas de identidade, teses essas ainda mal formuladas e experimentais. Por que a esquerda brasileira acatou tão facilmente tal mudança?
AR: A esquerda mundial já vinha vivendo forte crise interna desde o final da década de 1960, em consequência do movimento da contracultura, irradiando-se a partir dos Estados Unidos, e do “maio de 1968” na França e em outros países europeus, como a Alemanha. Mas a porrada central e decisiva veio depois, com as revoluções pacíficas do Leste Europeu, a queda do Muro de Berlim e o colapso e desintegração do império soviético. Marx acreditava ter provado cientificamente, com o seu “materialismo histórico”, que era inevitável que os países capitalistas, em seu avanço tecnológico, se convertessem em países socialistas. Mas o que realmente aconteceu, ao apagar das luzes do decênio de 1980, no Leste Europeu, foi o contrário: países socialistas se convertendo ao capitalismo e à democracia. Isso aconteceu na Polônia, na Hungria, na Bulgária, na então Alemanha Oriental, na Romênia e na então Tchecoslováquia. Em seguida, no desdobramento da “glasnost” de Mikhail Gorbachov, a União Soviética acabou. Foi a falência internacional do comunismo, que então passou a resistir somente em Cuba e em terras da Ásia, onde logo o velho socialismo seria também substituído por um novo “capitalismo de Estado”, como aconteceu na China e no Vietnã. E assim a esquerda, no mundo inteiro, viu o seu projeto se desarticular de uma ponta a outra. Sentiu o chão rachar sob seus pés e ficou sem norte, totalmente perdida. Foi aí que o multicultural-identitarismo, gerado pela esquerda acadêmica norte-americana, apareceu como uma espécie de tábua de salvação, à qual a esquerda internacional, em seu desespero e desorientação, se agarrou. E, para isso, trocou as classes sociais pelos movimentos de “oprimidos”, definidos principalmente em termos de raça e sexo. No caso brasileiro, temos ainda a nossa especificidade. Além do que foi dito, devemos lembrar que o tal do sistema universitário brasileiro é essencialmente colonizado e vive na pindaíba. Entraram em cena, vitoriosamente, os “copistas”, como Euclydes da Cunha os chamava. Um Silvio Almeida plagiário copiando a “tese” norte-americana do “racismo estrutural”, por exemplo. Como se fosse pouco, nossa universidade, nossos professores, nossas agendas de pesquisas foram compradas por instituições norte-americanas, com especial destaque para a Fundação Ford, que, de resto, já financiava desde a década de 1950 a sociologia marxista da USP, Florestan e suas crias, como Fernando Henrique Cardoso, o “mulatinho”, como então era chamado. E por aí o imperialismo cultural obrigou a esquerda universitária brasileira a se ajoelhar no altar do identitarismo. Não foi difícil: era uma universidade que não tinha dinheiro nem para comprar saco de pipoca e se viu de repente levada numa tremenda enxurrada de milhões de dólares. Jogou-se então o marxismo no lixo. E todo mundo passou a rezar pela nova cartilha multicultural.
PA: Em conversa recente com um amigo cientista político - um dos que gostam de suas obras -, ele me dizia que o senhor é no Brasil atual um fator de união crítica entre a direita e a esquerda democrática no país, análise com a qual concordo e que, de alguma forma me espanta, pois a polarização no Brasil atual vai além das ruas e praças, antes adentra lares e é causa de inimizades profundas e até de rompimentos mais sérios. Nessa esteira, surge a curiosidade como editor e, se me permite, amigo: qual grau de relacionamento e troca de ideias entre o senhor e conservadores e liberais brasileiros? Algum que o senhor nutra alguma admiração pessoal ou intelectual?
AR: Ao longo de minha vida, aprendi muito tanto com a direita quanto com a esquerda, tanto com comunistas quanto com conservadores. Mais: tanto com defensores da democracia quanto com defensores de ditaduras – e, neste último caso, incluo pensadores tão opostos quanto Platão e Marx. Para ficar em exemplos brasileiros, aprendi tanto com o conservador Gilberto Freyre quanto com os marxistas da Universidade de São Paulo, embora muito mais com Freyre do que com estes. Ao mesmo tempo, temos de relativizar. Freyre, em alguns aspectos, era muito mais libertário (e até anarquista) do que Florestan Fernandes, que tinha seu lado antiquado, conservador. Indo além, eu hesitaria em situar José Guilherme Merquior, com quem aprendi muito, na direita ou na esquerda. O próprio Merquior se dizia democrata em política, liberal em economia e anarquista em cultura. Enfim, tenho mestres nos mais variados campos. De um lado, Euclydes da Cunha, Caio Prado Júnior, Jorge Amado – de outro, Oliveira Vianna, Guimarães Rosa, Nelson Rodrigues... Agora, objetivamente, tenho amigos de esquerda e amigos de direita. Conversamos sobre os mais variados assuntos, temos preocupações genuínas com relação ao Brasil, etc. Minha casa é frequentada, indiscriminadamente, por socialistas, conservadores, liberais. Nunca tive problema com isso. Discutimos com sinceridade e clareza as mais diversas questões. Outro dia, num bar daqui da Ilha de Itaparica, onde moro, dividi uma mesa onde estavam o poeta e artista plástico Almandrade, eleitor de Bolsonaro, e o jornalista Tibério Canuto, militante clandestino de esquerda, que passou quatro anos na prisão, sob a ditadura militar. E foi uma conversa rica e agradável. Penso que talvez o segredo dessa convivência esteja não só no cultivo da tolerância civilizada, mas também no fato de que, embora a gente possa discutir qualquer assunto, ninguém pretende converter ninguém. Ninguém precisa “ter razão”. O proselitismo é um fantasma que não frequenta minhas rodas de conversa e amizade.


Eu sou da Ciências sociais da USP e fui conhecer o professor Risério há pouco tempo, através das redes sociais. O pensamento único que impera nas universidades brasileiras é muito triste e mesquinho.
Bom tê-lo por aqui, Risério. Bem vindo.